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Retrato de José Pinto de Paiva

Mestre FIDE · 1938 – 2024

José Pinto de Paiva

Bicampeão brasileiro, dezesseis vezes seguidas campeão baiano e duas vezes olímpico pela seleção brasileira. Para muitos, o maior enxadrista que a Bahia já teve.

O menino que aprendeu a jogar damas no cais do porto de Salvador se tornou referência nacional, levou grandes mestres à Bahia e ajudou a construir o calendário do xadrez baiano. Seu nome segue nos tabuleiros, no memorial e no circuito que a FBX realiza todos os anos.

2×campeão brasileiro absoluto — 1966 e 1971
16títulos baianos consecutivos: o hexadecacampeão
2Olimpíadas pelo Brasil: Lugano 1968 e Siegen 1970
FMMestre FIDE, último rating 2265
199partidas registradas em bases internacionais (1963–1976)

Trajetória

  1. 1938

    Nasce em 16 de julho, em Salvador. Cresce entre o Barbalho e o Santo Antônio Além do Carmo, filho do médico cearense Flávio de Oliveira Paiva e de Zulmira Pinto de Paiva.

  2. Aos 12

    Joga damas a dinheiro no cais do porto, contra marujos e estivadores. Logo descobre o xadrez — e não larga mais.

  3. 1960

    Está entre os fundadores da Academia Bahiana de Xadrez.

  4. 1963

    Estreia no Campeonato Brasileiro Absoluto, em Recife.

  5. 1965

    Chega a liderar o Brasileiro no Rio de Janeiro e termina em 3º, superado pelo menino Henrique Mecking, de 13 anos.

  6. 1966

    Campeão brasileiro em Belo Horizonte.

  7. 1967

    Vice-campeão em São Paulo, atrás de Mequinho.

  8. 1968

    Defende o Brasil na Olimpíada de Lugano, na Suíça.

  9. 1969

    Novamente vice-campeão brasileiro.

  10. 1970

    Olimpíada de Siegen, na Alemanha: +3 =3 −2 pela seleção.

  11. 1971

    Bicampeão brasileiro, em Fortaleza.

  12. 1972

    Disputa o Zonal Sul-Americano em São Paulo, classificatório para o ciclo do Campeonato Mundial.

  13. 2024

    Morre em Salvador, em 2 de dezembro, aos 86 anos.

Duelo de gerações

Pinto Paiva × Mequinho

1965Mequinho, 13 anos, campeão. Pinto Paiva, 3º.
1966Pinto Paiva campeão brasileiro.
1967Mequinho retoma o título. Pinto Paiva, vice.

Em três anos seguidos, o baiano e o prodígio gaúcho disputaram o topo do xadrez brasileiro. Pinto Paiva admirava o talento do rival, que em 1972 se tornaria o primeiro Grande Mestre do país.

Partidas

José Pinto Paiva × Aki Lahti

Olimpíada de Siegen, Alemanha · 1970

Pela seleção brasileira, Pinto Paiva roqueia para o lado da dama, prende o rei finlandês no centro e decide com um sacrifício de cavalo em e6. Uma das três vitórias que lhe deram +3 =3 −2 em Siegen.

Henrique Mecking × José Pinto Paiva

Campeonato Brasileiro · São Paulo, 1967

O duelo de gerações: o baiano, campeão do ano anterior, segura o empate de pretas contra o jovem Mequinho, que naquele ano retomaria o título.

José Pinto Paiva × Cândido Duarte

Campeonato Brasileiro · Belo Horizonte, 1966

No torneio do primeiro título nacional, 21 lances bastaram: sacrifício de qualidade em d7, o rei preto preso no centro e o bispo entrando em e6.

Carlos Juárez × José Pinto Paiva

Zonal Sul-Americano · São Paulo, 1972

No classificatório para o Mundial, de pretas: abre a coluna h com ...h5, entrega a torre em h2 e termina com mate no 35º lance.

Partidas: chessgames.com (Olimpbase e registros dos campeonatos brasileiros).

Biografia

O rei do tabuleiro baiano

Do cais do porto às Olimpíadas

Texto da FBX a partir das fontes listadas ao fim da página.

José Pinto de Paiva nasceu em Salvador, em 16 de julho de 1938, o terceiro de quatro irmãos. Cresceu entre o Barbalho e o Santo Antônio Além do Carmo e, aos 12 anos, já tirava uns trocados jogando damas no cais do porto contra marujos e estivadores. Dizia, aliás, que era melhor nas damas do que no xadrez. O xadrez veio logo depois, e a partir dos 18 anos passou a ser levado a sério.

O jogador

No tabuleiro, Pinto Paiva unia cálculo rápido e gosto pela iniciativa. Nas bases internacionais, que guardam 199 de suas partidas entre 1963 e 1976, aparecem com frequência a Defesa Índia do Rei e a Abertura Espanhola. Era também um especialista no jogo rápido: no Clube Baiano de Xadrez ficou famoso por enfrentar cinco adversários ao mesmo tempo com apenas um minuto no relógio.

Entre 1963 e 1972 esteve sempre entre os melhores do país. Foi terceiro em 1965, campeão em 1966 em Belo Horizonte, vice em 1967 e 1969 e campeão de novo em 1971, em Fortaleza. Na Bahia, venceu o campeonato estadual dezesseis vezes seguidas — o hexadecacampeão baiano.

José Pinto de Paiva diante do tabuleiro
Pinto Paiva diante do tabuleiro (Acervo FBX).

Com a camisa da seleção, disputou duas Olimpíadas de Xadrez como reserva: Lugano, na Suíça, em 1968, e Siegen, na então Alemanha Ocidental, em 1970, onde fez +3 =3 −2. Em 1972 jogou o Zonal Sul-Americano de São Paulo, porta de entrada para o ciclo do Campeonato Mundial, ao lado de nomes como Oscar Panno, Miguel Quinteros e o próprio Mecking. Recebeu da FIDE o título de Mestre FIDE.

O dirigente e o professor

Fora das mesas, foi um dos construtores do xadrez baiano. Esteve entre os fundadores da Academia Bahiana de Xadrez, em 1960, ajudou a organizar campeonatos e a fortalecer a Federação Bahiana de Xadrez, manteve por anos uma coluna de xadrez em jornais locais e trouxe a Salvador grandes nomes internacionais, como Anatoly Karpov e Pal Benko.

Também foi testemunha e cronista de outra lenda da casa. Na biografia de Ruth Volkl Cardoso, é dele a lembrança de que a fundadora da FBX era o elo entre o xadrez da Bahia e o dos grandes centros.

“Ela era o elo de ligação entre o xadrez disputado na Bahia e o de excelência dos grandes centros.”

Pinto Paiva, sobre Ruth Cardoso

Fora do tabuleiro

Formado em Direito, foi procurador do Município de Salvador até se aposentar e seguiu advogando na área trabalhista. Foi casado por mais de cinquenta anos com Ana Maria Alves Paiva e teve três filhos — o jornalista Rogério, o engenheiro Glauco e a advogada Mariana —, sete netos e um bisneto. Em casa, ensinava xadrez aos filhos e aos amigos deles e jogava simultâneas com a família, às vezes sem as torres e sem a dama — e ganhava assim mesmo.

Morreu em Salvador, em 2 de dezembro de 2024, aos 86 anos.

Legado

O nome de Pinto Paiva segue em disputa nos tabuleiros da Bahia.

Memorial Baiano Pinto Paiva
Memorial Baiano Pinto PaivaTorneio standard em homenagem ao bicampeão, abril de 2025
Circuito Baiano Pinto Paiva
Circuito Baiano Pinto PaivaEtapas de rápido e blitz por toda a Bahia
Clube Pinto PaivaFoi o principal clube da FBX, no Costa Verde Tennis Club, em Salvador, e sediou o Memorial em 2025. Encerrou suas atividades em 2026.

Fontes